COLUNA LEMYR MARTINS

Todos querem um Feliz 2009

Como todos os mortais, os homens da Fórmula 1 esperam ter um “Feliz 2009” e, logicamente, que isso seja replicado também nas pistas. Alguns se contentarão com bons resultados, outros com vitórias políticas, mas a grande meta é ser campeão. Mas esse é um desejo que só dois felizardos atingirão, um piloto e uma equipe.

Abaixo, selecionei algumas aspas de pilotos e dirigentes, acerca de suas expectativas para a temporada 2009.

Jarno Trulli
“Tenho o sentimento de que 2009 será o ano de minha primeira vitória com a Toyota na F-1.  Temos tecnologia e potencial para esse fato”.
 
Lewis Hamilton
1 - "Neste ano eu me sinto que estou livre daquela pressão que colocavam sobre mim e fazia com que eu preferisse não sair do hotel durante os Grandes Prêmios. Agora, pretendo desfrutar do meu título, ter mais tempo para me divertir com meus amigos.”

2 - “Também está nos meus planos festejar a inauguração da minha estátua, em julho deste ano”.
Lewis se refere a sua estátua, de tamanho natural, que será inaugurada no museu Madame Tussauds, em Londres, conceituado pelas réplicas de gente famosa  que imortaliza em cera.

3 – “Sei que 2009 será ainda mais difícil, mas pretendo lutar pelo bicampeonato e, até, por outros títulos”.
Hamilton ironizou ao fato de não ter vencido a eleição de Personalidade Esportiva do Ano na Inglaterra, patrocinada pela rede de televisão BBC, na qual foi derrotado por  Chris Hoy, ciclista tricampeão olímpico e tríplice medalhista em Pequim, por 19.766 votos. Além disso, Hamilton não passou da 5ª colocação na relação dos Melhores do Esporte de 2008, na eleição do jornal francês L’Equipe. Lewis fechou atrás do fundista jamaicano Usain  Bolt, do nadador  Michael Phelps, recordistas na Olimpíada da China, do tenista Rafael Nadal e de Valentino Rossi, campeão da MotoGP.

4- “Sim, é verdade que eu dormi com o troféu de campeão que recebi na festa da FIA, em Mônaco. Foi uma prova que sou o nº 1 e eu quero repetir o gesto em 2009”.

Felipe Massa
“Venci seis corridas e ajudei a Ferrari a ser Campeão dos Construtores, em 2008. Agora partimos para um novo campeonato e vou lutar para retornar a Mônaco no fim deste ano e receber o troféu que nessa noite foi entregue ao Lewis”.
Palavras do brasileiro no no jantar dos campeões da FIA realizado em Mônaco

Toma lá da cá
 “Esperamos que os pilotos  cooperem com o plano de economia da Ferrari  e concordem numa redução de salários em já em 2009”.
Stefano Domenicali, diretor geral da Ferrari, falando sobre a necessidade da colaboração de todos para o corte nos orçamentos das equipes da F-1
"O salário dos pilotos não pesa no orçamento geral da equipe. A alta competição na F-1 transforma o piloto em peça fundamental, daí não concordo com a redução do salário, em 2009.”
Felipe Massa, rebatendo à proposta do chfefe

Frank Williams
“Desejo que o corte nos custos torne a F-1 competitiva, em 2009”.
Espera-se que a categoria fará o avanço que foi impossível nos últimos campeonatos, quando se tinha um orçamento apenas para participar da categoria, sem condições de manter a equipe competitiva.

Fernando Alonso
1 – O espanhol ainda não abriu a boca, mas já garantiu um Feliz 2009 com um contrato de  6 milhões de euros com o canal de TV La Sexta. Ele irá comentar os Grandes Prêmios da temporada com exclusividade após as corridas.

2 – Além disso, para não romper o ano sem a esperança de uma futura contratação pela Ferrari, Alonso agora tem a garantia do jornal italiano Gazzetta dello Sport que será um dos pilotos de Maranello em 2011. Quem viver verá.

Bernie Ecclestone
“Confio que o bom senso vai prevalecer e teremos as premiações dos pilotos por medalhas já neste ano”.

Giancarlo Fisichella
“Estou seguro que as inovações no regulamento e a reestruturação da Force India  -- que terá o apoio da Mercedes-Benz e McLaren --, me darão chance de conquistar melhores resultados em 2009.”
A Force Índia foi a única equipe que não pontuou em 2008. 

Max Mosley
1 – “Felizmente esse capítulo está encerrado e a F-1 será outra a partir de 2009.
Palavras do presidente da FIA sobre o famigerado caso de espionagem  da McLaren contra a Ferrari em 2007. O processo que corria a justiça italiana, e que envolveu os engenheiros Mike Coughan,  Paddy Lowe, Rob Taylor e Jonathan Neale está próximo da conclusão – e de terminar em pizza. Um desfecho  que, graças ao acordo entre os  advogados dos réus e da Ferrari, fez com que as acusações fossem retiradas e as penas transformadas em punição pecuniária. Assim Coughan pagará 180 mil libras (R$ 612.000) e os outros três réus  150 mil  ( R$ 510,000).

2 - "A temporada 2009 será lembrada como o ano em que a Fórmula 1 cortou seus gastos e tornou a categoria mais competitiva. Outra inovação importante, que espero seja aprovada, é o congelamento no desenvolvimento dos motores e a sua redução de custos. Assim, os times não gastarão mais de 5 milhões de euros com os propulsores por temporada."

Sebastien Vettel
"Os testes de dezembro mostraram que estamos em um bom  momento, pois estamos avançados na adaptação do regulamento de 2009. Teremos o KERS  -- Sistema de Recuperação de Energia Cinética – incorporado ao novo carro desde o inicio dos testes e eu também gostei de pilotar com os pneus slicks”.
Resumindo: o alemãozinho pensa grande e se diz pronto para para dar à Red Bull a primeira vitória na F-1, com fez na Toro Rosso, em Monza.

Nico Rosberg
“Chegamos duas vezes ao pódio em 2008, mas a equipe aprendeu muito nos  momentos difíceis e é esse aprendizado que me  darão condições de  levar a Williams  a melhores resultados nesta temporada”.

As frases de 2008

As farpas rolaram soltas na Fórmula 1 em 2008 e, na guerra verbal entre os pilotos, Lewis Hamilton foi o alvo preferido. Muitas palavras perderam-se ao vento, outras tiveram réplicas. Algumas profecias foram proferidas, mas poucas serão lembradas pela História. Aqui, uma mostra do que se disse nos bastidores de dos mais emocionantes campeonatos da existência da Fórmula 1.

“Lewis age como se estivesse só na pista. Na próxima vez dou o troco.”
Timo Glock, após o GP da Itália.

“Hamilton executa movimentos bruscos e perigosos em trechos inadequado para se fazer uma manobra de ultrapassagem.”
Fernando Alonso, em Monza.

“Lewis Hamilton é um piloto sujo.”
Jack Villeneuve, campeão de 1997, dando seus pitacos sobre o GP da Cingapura.

“Não gosto de polêmica, mas a maioria dos pilotos não aprova as táticas de Lewis.”
Robert Kubica, no GP do Japão.

“Lewis Hamilton só provará o seu verdadeiro potencial quando pilotar um carro menos competitivo.”
Jenson  Button, após o compatriota conquistar o título de 2008.

“A fidelidade de Lewis à McLaren durará somente enquanto a escuderia lhe der um carro competitivo. Até 2012 – limite de seu contrato–,  muita coisa irá acontecer.”
David Coulthard, comentando as juras de amor e fidelidade de Hamilton à McLaren

“Alonso ensinou-me como um piloto de F-1 não deve agir dentro da equipe.”
Lewis Hamilton, retrucando as declarações de Alonso, que, se fosse possível, ajudaria Massa a ser campeão.

“Eu ultrapassei o Felipe normalmente. Aí ele vem e me atinge de forma agressiva e deliberada.”
Lewis Hamilton, sobre o acidente com Massa no GP do Japão.


“Eu não bati propositalmente no Lewis, foi um toque de corrida. Tampouco creio que ele pense diferente. Temos um relacionamento muito bom e profissional, e eu não faria nada  para mudar essa relação.”
Felipe Massa, comentando o mesmo incidente no GP nipônico

“Sou tão bom quanto Senna foi.”
Lewis Hamilton.

“Senna foi meu ídolo. Eu gostaria de chegar até onde ele chegou. Lamento que existam pessoas que têm uma impressão diferente do meu caráter, me considerando arrogante só porque creio na minha capacidade.”
Outra de Hamilton

“Sou  impopular só porque eu não me reúno com outros pilotos para jogar pôquer. Estou aqui para correr e estou vencendo. Daí descartar a participação na rodinha do pôquer. Meu jogo é trabalhar.”
Lewis Hamilton, rebatendo as críticas  sobre antipatia.

“Hamilton derrotou Massa e conquistou o campeonato com uma manobra genial sobre o Toyota de Timo Glock na última volta do GP do Brasil.”
Pérola de um tablóide inglês, após o Grande Prêmio do Brasil.

“Felipe Massa venceu uma corrida histórica e heróica no GP do Brasil. O brasileiro chegou a ser o campeão por breves instantes e só perdeu-o por um mero ponto. Se tivesse conquistado o campeonato ele seria o maior dos maiores para os seus apaixonados conterrâneos.”
Matt Stone, da revista americana Motor Trend.

“Lewis Hamilton é o campeão da F-1. Felipe Massa o campeão entre os homens.”
Outra de Matt Stone.

“A confiabilidade e as vitórias não caem do céu, elas são resultados do trabalho e dedicação. Elas são o antídoto contra o azar.”
Luca di Montezemolo, chefão da Ferrari, após as explosões dos motores de Massa na Hungria e Raikkonen em Valência. 

“É inaceitável  concordar em ter, em nossos carros, outro motor que não o construído pela Ferrari”.
Luca di Montezemolo, sobre o motor padrão.

“O Honda RA-109, nosso modelo de 2009, será um carro muito veloz e ouso colocá-lo na disputa por vitórias.”
O otimista Jenson Button

“Os  grandes prêmios seriam muito mais disputados e seguros se os pit-stops obrigatórios fossem abolidos.”
David Coulthard, já aposentado, sobre o reabastecimento na F-1

“Não sei qual o trabalho de Schumacher, eu cuido do meu”
Kimi Raikkonen sobre a participação de Schumi nos testes da Ferrari.

“Nós somos responsáveis pelas nossas decisões e eu  tomei a minha.”
Kimi Raikkonen, depois de ceder o 2º lugar a Massa, no GP da China.

“Trabalhamos para uma equipe e fazemos o melhor que podemos.”
Felipe Massa, após o GP da China..

“Para a Ferrari e para Felipe, será ótimo se ele for campeão. Mas, para mim não faz diferença, vença quem vencer.”
Kimi Raikkonen, em Xangai.

“Vocês não se lembram que, no GP da Alemanha desse ano, Kovalainen facilitou a passagem ao Hamilton? Os pilotos sabem dos interesses da equipe, sem necessidade de que lhes digam o que fazer.”
Stefano Domenicali, chefão da Ferrari, após a troca de posições de Raikkonen Massa, em Xangai.

“A Ferrari é o melhor time da história da Fórmula 1 e os pilotos que competirem por ela também entram para a história. Admito que, um dia, eu gostaria muito de estar lá.”
Fernando Alonso, admitindo a vontade de correr pelo time de Maranello

“O que farei se não competir na F-1 em 2009? Eu vou chorar.”
Rubens Barrichello, em entrevista ao Fantástico, da Rede Globo.

“Eles falaram que eu deveria pensar no meu contrato. Aquilo para mim foi uma ordem: melhor você tirar o pé ou você vai acabar sendo mandando embora.”
Outra de Rubinho no Fantástico, sobre ceder a vitória a Schumacher no GP da Áustria de 2002.

”Fernando estuda um pré-contrato de Maranello para 2009. A Ferrari está disposta a pagar multa rescisória do contrato com o desmotivado Kimi Raikkonen.”
Capa de uma edição do Mundo Deportivo, jornal espanhol, alardeando a contratação de Alonso pela Ferrari.

“E eu que imaginava que o Lewis havia aprendido a lição com os erros que o levaram a perda do título do ano passado.”
Nick Heidfeld sobre a confusão causada por Lewis na largada do GP do Japão.

“O que eu tenho que fazer para vencer?”
Fernando Alonso, após as primeiras voltas do GP do Japão. Informado que o inimigo era Kubica, Alonso só fez aumentar a diferença do polonês até ter a certeza da vitória no GP do Japão.

“Meu ânimo para 2008 é o de quem saiu de um cárcere – leia-se McLaren – para a liberdade.”
Fernando Alonso, durante os testes pré-temporada em Montemeló, Barcelona.

“Chegaremos a janeiro com um modelo veloz e creio que os pneus slicks facilitarão o meu estilo de pilotagem.”
Fernando Alonso, contando suas expectativas para 2009

“A  motivação de competir na Force India, está  no contra-cheque.”
Giancarlo Fisichella, sem medo de ser chamado de mercenário.

“Em 2008, a Toro Rosso irá passo a passo, sempre para à frente, apostando no talento de Sebatien Vettel."
Gerhard Berger, então sócio da equipe, antes da temporada.

“Esperamos por Alonso em 2009 com muitas flores e champanhe.”
Nick Fry, chefão da Honda – evidentemente antes de a Honda anunciar sua saída da F-1.

“Brawn não promete milagres, mas aposta seu prestígio que encerra a temporada de 2008 com a Honda competitiva.”
Jenson Button, antes da primeira corrida em Melbourne.

“A F-2008 é muito superior ao modelo anterior e foi projetada para o estilo de Raikkonen pilotar e ser bicampeão.”
Pietro Lardi Ferrari, diretor da Ferrari, na apresentação do carro, quando acabou ‘esquecendo’ de mencionar Felipe Massa.

“O R28, que fechou o ano 1 segundo mais veloz do que iniciou, é por isso que apostamos que o Renault R29 estará na briga pelo título de 2009.”
Bob Bell, diretor técnico da Renault, após o encerramento da temporada.

“Somos pela redução de 50%  dos custos na Fórmula 1 em 2010. Sem essa meta, outros times seguirão o destino da Honda.”
Norbert Haug, diretor técnico da Mercedes-Benz, parceira da McLaren nos motores.

“Se não houver contenção no orçamento geral da categoria, será difícil nivelar a competitividade.”
Ron Dennis, chefão da McLaren.

“Mesmo com toda a crise, duvido que a Honda abandonasse a F-1 se tivesse fechado o campeonato em terceiro lugar.”
Bernie Ecclestone, poderoso gestor da F-1.

Nova F-1, de novo

Para driblar a crise financeira internacional, a Fórmula 1 termina o ano anunciando uma série de novidades para baixar os custos em 2009. Algumas técnicas, outras políticas. Umas possíveis e outras que dificilmente emplacarão.

Uma medida discutível é a restrição dos ensaios nos túneis de vento. A FIA, seguramente, terá dificuldade em fiscalizar essa atividade, pois os projetistas dependem dela para auferir os seus carros antes de materializá-los e de enviá-los para os testes de pista. A meta é a de definir a carga-hora por equipe. Mas aqui cabe perguntar: como ficará o desenvolvimento do carro durante o ano?

No que diz respeito aos motores, muda a vida útil. Eles terão que ser utilizados em três corridas seguidas, em vez das duas como aconteceu este ano. E as equipes que não quiserem utilizar o motor padrão – já aceito pelos times independes – Williams, Red Bull ,Toro Rosso e Force Índia -- poderão utilizar o seu próprio propulsor, desde que dentro das especificações impostas pela FIA e concretizadas pela Cosworth – a empresa que fabricou motores para a F-1 com o sucesso de 15 campeonatos ganhos de 1968 até 1983.

A formação do grid deverá ter mudanças profundas. A proposta mais votada elimina o sistema que descartava os cinco carros mais lentos na Q1 e Q2. A fórmula prevê a entradas de todos os carros na pista ao mesmo tempo, com a mesma quantidade de combustível. E aí vem um fator complicador, porque o novo sistema prevê a eliminação do carro mais lento a cada volta.

Após 14 voltas, permanecerão na disputa do grid apenas os 6 mais velozes. Nessa etapa, que seria equivalente ao atual Q3, os pilotos classificados brigarão pela pole position, abastecidos com a mesma quantidade de combustível, mas será permitida a troca de pneus, que serão os slics em2009. Uma inovação complicada que só a prática  mostrará eficiência.

Outra alteração, que será examinada em janeiro, é o sistema de premiação de medalhas, proposto por Bernie Ecclestone, já para a temporada 2009. Na prática a idéia é substituir por medalhas de ouro a pontuação em vigor nos grandes prêmios. O piloto com maior número de medalhas no final da temporada será proclamado campeão.

A  proposta é de Bernie Ecclestone, homem que gere o orçamento dos grandes prêmios. Para o velho cartola, o sistema ao estilo Olimpíada motivaria os pilotos a se arriscarem mais nas ultrapassagens aumentando a emoção das corridas. Uma  proeza que não dependerá só da vontade do piloto, mas também da competitividade dos carros.

Mario Theissen, chefe da BMW, não crê na aprovação pura e simples da premiação por medalhas, porque o critério de julgamento dificilmente chegará  à unanimidade. Mas o alemão também deu o seu lance. Ele defende 1 ponto extra ao pole position e associa-se à corrente que quer 1 ponto extra também para o piloto que cravar a volta mais rápida. Esse sim um fato que motivaria mais a competição, e que já vigorou na F-1, entre os anos de 1950 e 1958.

A terceira sugestão na pontuação é um ponto de vista de Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari. Ele defende uma diferença maior entre o vencedor e o segundo colocado. Por exemplo: 12 ao primeiro e 8 ao segundo e 6,5,4,3,2 e1, aos 6 subseqüentes.

Montezemolo teve essa inspiração ao examinar a classificação desta temporada, na qual Felipe Massa com 6 vitórias, uma a mais do que Lewis Hamilton , perdeu o título por um ponto 97 a 98. Segundo o dirigente, o atual critério é injusto, pois pode punir o maior vencedor do ano e premiar o piloto apenas regular.

Agora é só esperar o ano novo para conferir o que a Fórmula 1 2009 terá de nova.

O exército da F-1

A saída da Honda do circo detonou uma bomba que há muito tinha o estopim aceso. Para ser mais exato, há 30 anos. Desde 1978, quando Jean-Marie Balestre, então presidente da ISA (que depois se tornou FIA), abriu uma guerra contra  Bernie Ecclestone, já gestor da Fórmula 1, para que as escuderias tivessem  uma participação nos lucros dos Grandes Prêmios. Na época, Balestre brigava pelo rateio dos direitos de transmissões de televisão.

O cartola minimizou o desafio do concorrente. Do alto do seu poder, Bernie ironizou Balestre, parafraseando Stalin. Como o ditador russo, que perguntou  “quantas divisões tinha o exército do Papa”, quando Pio XII  condenou sua política religiosa, Ecclestone inquiriu:  “Quantas equipes tem Balestre”?

Mas, desta vez, a realidade é outra. A FOTA (Formula One Team Association,  associação dos Construtores da F-1) reivindica uma fatia no bolo geral de arrecadação da FOM (Formula One Managerment, Entidade gestora dos grandes prêmios), liderada por Ecclestone, o poderoso comandante comercial da F-1, para sugerir uma distribuição mais democrática dos lucros da categoria.

As escuderias, apoiadas pelo presidente da FIA, Max Mosley, levaram para a reunião com a FOM, em Mônaco, nesta semana, um pedido inicial de retorno de US 50 milhões anuais.

A exigência não é um mero enfretamento e tem um argumento embasado em cifras. Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari e da associação das escuderias, exibiu um interessante levantamento do movimento financeiro dos esportes profissionais em 2007. A pesquisa revelou que a Fórmula 1 é a modalidade esportiva profissional mundial com maior lucro por evento e a terceira na arrecadação geral. Perde, na contabilidade anual, apenas do campeonato de futebol e do beisebol das ligas norte-americanas.

O balanço mostra que o lucro médio por evento da F-1, ano passado, foi de US$ 217,8 milhões, perto dos R$ 545 milhões ao câmbio atual, nos fins de semana de corrida. A pesquisa também mostrou que o interesse pelos Grandes Prêmios, superaram em US$  350 milhões a receita de 2006. Um dado que revela que a crise da categoria se restringe às escuderias. Ou seja: os times podem estar ameaçados de insolvência, mas os lucros da FOM -- Bernie Ecclestone & Cia -- vai bem, obrigado.

Não há dúvida que a renúncia de uma escuderia do porte da Honda, com um orçamento de US$ 400 milhões ano, atrás apenas de Ferrari, Toyota e Mclaren, foi um grito de alerta e, agora, é prioridade das montadoras de recolocar a F-1 nos eixos.

Norbet Haug, diretor técnico da Mercedes-Benz, parceira da McLaren nos motores, é pela redução pura e simples de 50% nos custos. Uma meta para 2010, sem a qual outros times seguirão o destino da Honda, na previsão de Haug.

Ron Dennis, chefão da McLaren, concorda. Pois mesmo com a aura do campeão Lewis Hamilton e o apoio de dois grandes patrocinadores, a Vodafone e o Banco Santander,  Dennis teme que se não houver contenção no orçamento geral da categoria, será difícil nivelar a competitividade.

Da Ferrari, sempre resistente a limitação da quilometragem  e a quantidade de testes , naturalmente por possuir dois autódromos particulares –Fiorano e Mugello -- agora apóia os o regime de contenção.

Uma das propostas de Montezemolo é a economia de combustível. O patrão da Ferrari sugere que FIA homologue, para 2011, um motor que consuma 30% menos combustível do que os atuais. Mas é contra a introdução do motor e câmbio padrões, uma inovação aprovada com entusiasmo pela Force India, Red Bull, Toro Rosso e Williams, as quatro equipes independentes.

Ironicamente, a FIA está fortalecida com a renúncia da Honda. Max Mosley, o presidente, vê no fracasso do time nipônico a chance de aprovação dos seus projetos para nivelar a competição na F-1, impondo restrições técnicas nos carros.

Na reunião de Mônaco, Mosley insistiu que a economia deverá ser de 10 a 20% , já no próximo ano. Para 2010, ele defende que o orçamento anual das equipes médias terá que desabar dos US$ 120 milhões para um terço, Ou  seja: de US$ 40 milhões para que a F-1 crie musculatura e sobreviva.

Ou seja, um tratado conjunto da FOTA, FOM e FIA para não matar a galinha dos ovos de ouro, substituindo essa sopa de siglas por escuderias fortes e competitivas. Que, em síntese, formam o exército da F-1.

COLUNAQUEM ESCREVE

Lemyr
Martins

lemyr@uol.com.br

Jornalista especializado em automobilismo, já cobriu mais de 280 Grandes Prêmios in loco.